A ideia · Obra

A Ideologia Alemã: a câmara escura que inverte a imagem

Ideias · Leitura de 5 minutos

Lente de vidro apoiada sobre uma folha de papel fosco em branco numa mesa escura, invertendo a luz atrás dela, luminária quente vindo só da esquerda alta, sombra longa e baixa esticando pra direita e fundo breu de ameixa com um acento púrpura claro

Um homem valente, conta o prefácio, decidiu que as pessoas se afogam porque estão possuídas pela ideia da gravidade. Tire a ideia da cabeça delas, e a água deixa de ser problema. A Ideologia Alemã foi escrita contra essa figura, e o afogado do prefácio é o filósofo alemão da época.

O livro é de Karl Marx e Friedrich Engels, escrito em Bruxelas em meados do século 19, no calor de uma briga aberta com os antigos aliados dos dois.

A tese cabe numa linha: as ideias de uma época não pairam acima da vida material, elas saem dela. O resto do manuscrito é a demonstração, e a imagem central do argumento é de ótica.

A câmara escura: a imagem que chega de cabeça pra baixo

A câmara escura é o aparelho que projeta, por um furo, a imagem do lado de fora numa parede interna, invertida. Na frase do livro, a ideologia funciona assim: os homens e as circunstâncias deles aparecem de cabeça pra baixo, como numa câmara escura.

O texto emenda a comparação com o olho. A inversão da imagem na retina também é efeito do processo físico da visão, e ninguém acusa o olho de mentir por causa dela. A inversão da ideologia, do mesmo jeito, é efeito de um processo histórico de vida, e não invenção de um mentiroso com plano.

Fica registrado ali o que a palavra ideologia quer dizer no livro. Ela não nomeia um conjunto de opiniões políticas: nomeia a imagem invertida em que as ideias aparecem como causa da vida que na verdade as produziu.

A vida antes da consciência

O segundo golpe desfaz a inversão. Não é a consciência que determina a vida, escrevem os autores, é a vida que determina a consciência. A frase vem depois de uma constatação simples: antes de fazer história, filosofia ou religião, é preciso comer, beber, morar e vestir.

O ponto de partida do livro são homens em atividade, com corpo e com ferramenta, dentro de condições materiais que eles encontram prontas e transformam. As representações e o pensamento sobem daí como vapor sobe de um processo, e não de uma esfera com regras próprias.

Contra o quê: contra a filosofia que tratava a consciência como a oficina onde o mundo se decide. Se a consciência é produto, mudar a consciência sem mexer nas condições é enxugar a água com a torneira aberta.

A divisão do trabalho, e o dia partido em pedaços

A divisão do trabalho entra no livro como o mecanismo que fabrica a ilusão. Quando o trabalho de pensar se separa do trabalho de produzir, a consciência ganha a impressão de ser alguma coisa independente do mundo, e passa a se imaginar sem endereço e sem custo.

O trecho mais lembrado descreve o oposto: uma sociedade em que ninguém tem um único ramo de atividade, e alguém pode caçar de manhã, pescar de tarde, cuidar do gado à noite e criticar depois do jantar, sem virar caçador, pescador, pastor ou crítico.

Se o parágrafo é projeto de sociedade ou piada contra a especialização é disputa velha entre leitores. A mesma página combina as duas leituras: descreve o trabalho que fixa a pessoa num ramo só e alfineta o crítico que se acha fora de qualquer ramo.

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A briga com os jovens hegelianos

Os adversários têm nome. Os jovens hegelianos eram o grupo de onde Marx e Engels tinham saído, gente que lia Hegel pela esquerda e tratava a crítica das ideias como o trabalho político por excelência.

Ludwig Feuerbach tinha explicado a religião como projeção humana, e o livro reconhece o avanço antes de cobrar o passo seguinte: dizer que Deus é criatura do homem sem perguntar que vida material produz um homem que precisa criar Deus deixa o serviço pela metade. Bruno Bauer levava a mesma crítica pra dentro da autoconsciência. Max Stirner, em O Único e a sua Propriedade, tinha declarado guerra a toda ideia fixa em nome do indivíduo.

A resposta é desproporcional de propósito. A parte mais longa do manuscrito é a demolição de Stirner linha a linha, com apelido de santo no título do capítulo, no estilo de polêmica que a época cultivava e que hoje soa como briga de vizinho por cima do muro.

A crítica roedora dos ratos

O manuscrito não achou editor. Ficou guardado, e a primeira edição completa só saiu em Moscou, em 1932, perto de noventa anos depois de escrito, montada a partir de páginas com a letra dos dois e emendas nas margens. A ordem das folhas do primeiro capítulo segue em disputa entre editores, e edições diferentes trazem o mesmo texto em sequências diferentes.

Marx contou o fim da história no prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Política: os dois abandonaram o manuscrito à crítica roedora dos ratos, e de bom grado, porque o objetivo principal já tinha sido alcançado, que era esclarecer as próprias ideias.

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