A ideia · Obra
Genealogia da Moral: de onde vem a palavra bom
Ideias · Leitura de 5 minutos

Neste artigo
A pergunta que abre a Genealogia da Moral parece pequena: de onde vem a palavra bom. Nietzsche trata a resposta corrente como erro de método, e o erro tem endereço.
Os moralistas ingleses que ele lia explicavam mais ou menos assim: chamou-se bom o ato útil a quem o recebia, o hábito pegou, a origem foi esquecida e sobrou a sensação de que o bom é bom em si mesmo. No prefácio, ele nomeia o alvo mais próximo, o livro de Paul Rée sobre a origem dos sentimentos morais.
A objeção é histórica. Quem cunhou a palavra bom não foi quem recebia o benefício. Foram os que mandavam, e eles nomearam a si mesmos.
Primeira dissertação: bom contra ruim, e bom contra mau
Existem dois pares de valores no livro, e trocar um pelo outro é perder o argumento inteiro.
O primeiro par nasce de cima. O nobre chama de bom aquilo que ele mesmo é, e o oposto, ruim, é o que sobra: o comum, o baixo, o simples. Não há ódio na palavra, só distância. Nietzsche sustenta a tese com filologia, mostrando que em várias línguas as palavras pra bom remetem a nobre e de boa origem, enquanto as palavras pra ruim remetem a plebeu e vulgar.
O segundo par nasce de baixo e inverte a ordem inteira. Ele começa por um não dito a alguém de fora: o poderoso é chamado de mau, e só depois, por contraste, quem sofre chama a si mesmo de bom. A moral de senhor afirma primeiro e compara depois. A moral de escravo precisa de um inimigo antes de conseguir se definir.
O que ele quer com a descrição segue em disputa entre os leitores, e os dois lados têm critério. Quem lê o livro como pedido de retorno à moral de senhor se apoia no tom do texto e nos elogios ao nobre. Quem lê como história de fabricação de valores se apoia no fato de o próprio Nietzsche chamar a inversão de escravo de feito criador, o acontecimento que deu profundidade à alma humana e tornou o ser humano interessante.
O ressentimento: a moral que precisa de um inimigo
Ressentiment, o termo francês que ele mantém em alemão, nomeia a vingança imaginária de quem está impedido de reagir de fato. A ação verdadeira fica bloqueada, e a compensação vem em valor: quem não pode revidar declara que revidar é mau.
A fábula da primeira dissertação é dos cordeiros e das aves de rapina. Os cordeiros acham as aves más e concluem que quem não é ave de rapina deve ser bom. A ave não tem opinião contrária, apenas come cordeiro, e Nietzsche observa que exigir da ave que não seja ave é exigir que a força não se manifeste como força.
O truque, no argumento dele, é de gramática. A língua separa o relâmpago do brilho, como se houvesse um relâmpago por trás capaz de escolher não brilhar. Do mesmo jeito, ela inventa um sujeito atrás do ato. Uma vez inventado o sujeito, o forte pode ser cobrado por não ter escolhido ser fraco, e a fraqueza vira mérito.
Segunda dissertação: a culpa nasceu de uma dívida
O alemão dá a pista que o português esconde. Schuld quer dizer culpa e também dívida, a mesma palavra pros dois sentidos, e a segunda dissertação parte daí.
A tese é que a relação mais antiga entre pessoas é a de credor e devedor, e a punição não começou como correção moral. Começou como pagamento. Quem não podia pagar em bens pagava em dor, e o credor recebia o direito de infligir sofrimento como quem recebe uma quantia. Fazer memória custou crueldade, porque só o que continua doendo permanece lembrado.
A má consciência entra quando a saída externa fecha. Encerrado na paz da sociedade, o instinto de agressão perde o lado de fora e se volta contra quem o carrega. O ser humano passa a se tratar como matéria a ser domada, e Nietzsche chama a operação de doença, com a ressalva de que se trata de uma doença do mesmo tipo que a gravidez.
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Terceira dissertação: o que significam os ideais ascéticos
A terceira parte pergunta pelo sentido dos ideais que negam o corpo, o prazer e o mundo, e é a que menos costuma ser lida até o fim.
A resposta passa pelo sacerdote ascético, a figura que administra o sofrimento alheio. O achado dele, na leitura de Nietzsche, foi mudar a direção da pergunta. Diante da dor sem explicação, o sacerdote oferece um culpado, e o culpado é o próprio sofredor. A dor deixa de ser absurda e passa a ser merecida, o que é insuportável de um jeito e bem mais suportável de outro.
Está aí a frase que fecha o livro. O ser humano aguentou sofrimento em quantidade, e o que ele não aguentava era o sofrimento sem sentido; a vontade prefere querer o nada a não querer coisa alguma.
O subtítulo que avisa o que o livro é
Na folha de rosto, embaixo do título, vem a palavra que quase todo mundo pula: Eine Streitschrift, um escrito de combate, uma polêmica. O livro se anuncia como ataque, e não como inventário neutro de história da moral.
O aviso resolve metade das brigas de leitura. O que está ali é um texto escrito pra ferir uma posição adversária, com a ênfase que a briga pede e o exagero que a briga permite. A capa informa também a companhia: ele saiu apresentado como complemento e esclarecimento de Além do Bem e do Mal, publicado pouco antes.
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