A ideia · Obra
Assim Falou Zaratustra: as três transformações do espírito
Ideias · Leitura de 5 minutos

Neste artigo
O livro tem forma de profecia e conteúdo de ataque à profecia. Assim Falou Zaratustra imita de propósito a cadência da Bíblia de Lutero, com discurso, deserto e montanha, e usa a forma emprestada pra dizer o contrário do que ela costuma dizer.
Um personagem desce da montanha carregando uma ideia e passa o livro tentando entregar, sem conseguir. O subtítulo avisa em que mão a coisa cai: um livro para todos e para ninguém.
O trecho mais citado abre a primeira parte e cabe em duas páginas. Três transformações do espírito, em ordem, e nenhuma delas é etapa de melhoria pessoal.
O camelo: o espírito que pede peso
A primeira figura é o camelo, o espírito que se ajoelha pra ser bem carregado. Ele procura o mais pesado e sente respeito por quem manda nele. Aprender a língua do outro, obedecer o que custa, aguentar o que humilha um pouco: o camelo faz por vontade própria, e o detalhe está aí.
Assim Falou Zaratustra não trata a fase como erro. A carga é aprendizado, e o deserto pra onde o camelo corre é o lugar em que a herança fica sozinha com quem a carrega.
Contra o quê: contra a fantasia de começar do zero. Ninguém pula a etapa de receber pronto o que veio antes, e o livro dá a ela uma figura inteira.
O leão: o não que abre espaço
No deserto, o camelo vira leão. O adversário aparece em forma de dragão coberto de escamas, e em cada escama brilha um "tu deves" com séculos de idade.
O leão não cria valor novo, e o livro é explícito no ponto. Ele conquista liberdade pra criar, o que é outra coisa: abre o espaço, diz não ao dever que se apresenta como eterno, troca o "tu deves" pelo "eu quero".
Um leão que só ruge fica com o deserto vazio. Daí a necessidade de uma terceira figura, e a recusa do texto em parar na rebeldia, que era onde o século 19 gostava de parar.
A criança: o sim que não pede licença
A terceira figura é a criança: inocência, esquecimento, um começar de novo, uma roda que gira sozinha, um primeiro movimento, um sagrado dizer sim. A lista é do próprio livro, e cada item corrige uma parte do leão.
Esquecimento, porque quem guarda a lista de ofensas continua preso a quem ofendeu. Roda que gira por si, porque o impulso deixa de vir do que existe pra ser negado. Dizer sim, porque criar exige afirmar alguma coisa, e negar sai barato.
A criança não é o adulto que voltou a ser ingênuo. É quem inventa o jogo, em vez de jogar o que achou pronto ou de passar a vida quebrando o tabuleiro.
O além-do-homem, e a tradução que criou a confusão
A ideia que Zaratustra desce pra anunciar é o além-do-homem, o Übermensch. A tradução por super-homem colou no personagem de quadrinhos e sugere um sujeito mais forte que os outros, o que o livro não sustenta em lugar nenhum.
O texto apresenta o homem como uma corda estendida entre o animal e o além-do-homem, uma corda sobre um abismo, e o valor fica na travessia. E amarra a ideia ao chão: o além-do-homem é o sentido da terra, contra qualquer esperança que peça pra olhar pra cima.
Nada ali descreve raça, biologia ou linhagem. A leitura biológica veio depois e de fora do livro.
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O eterno retorno: a prova que pesa a vida inteira
Na terceira parte, o livro monta a imagem de um portão onde dois caminhos infinitos se encontram, um pra trás e um pra frente, com o nome Instante escrito em cima. Se o caminho de trás não tem fim, tudo que pode acontecer já aconteceu, e volta.
O eterno retorno funciona como prova de fogo. Viver de novo a mesma vida, com a mesma dor, na mesma ordem, sem uma vírgula diferente: a questão é se você aguentaria, e se aguentaria de bom grado.
Se ele acreditava no retorno como fato do mundo ou o usava só como prova é disputa antiga entre leitores, e o próprio livro serve os dois lados: a cena do portão argumenta como cosmologia, e a reação do personagem funciona como teste. Zaratustra engasga com a ideia antes de conseguir dizer em voz alta, e o texto deixa o engasgo à vista, porque o retorno devolve tudo, inclusive o mesquinho e o que a gente preferia esquecer.
A quarta parte, impressa por conta do autor
A quarta parte não teve editora. Saiu por conta do próprio autor, em tiragem de 40 exemplares, e ele distribuiu pouquíssimos, a um punhado de conhecidos, porque as três primeiras partes tinham vendido quase nada.
O livro que hoje aparece em lista de mais lidos circulou, na última parte, como impresso particular de gaveta. A edição pública dela só veio depois, quando o nome do autor já tinha virado assunto e ele já não estava escrevendo.
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