A ideia · Obra
Assim Falou Zaratustra: as três transformações do espírito
Por Redação Filosofia do Dia · Ideias · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- O camelo: o espírito que pede peso
- O leão: o não que abre espaço
- A criança: o sim que não pede licença
- O além-do-homem, e a tradução que criou a confusão
- O eterno retorno: a prova que pesa a vida inteira
- Por que justamente Zaratustra
- O estilo é parte do argumento
- Linha do tempo do livro
- A quarta parte, impressa por conta do autor
- Perguntas frequentes
O livro tem forma de profecia e conteúdo de ataque à profecia. Assim Falou Zaratustra imita de propósito a cadência da Bíblia de Lutero, com discurso, deserto e montanha, e usa a forma emprestada pra dizer o contrário do que ela costuma dizer.
Um personagem desce da montanha carregando uma ideia e passa o livro tentando entregar, sem conseguir. O subtítulo avisa em que mão a coisa cai: um livro para todos e para ninguém.
O trecho mais citado abre a primeira parte e cabe em duas páginas. Três transformações do espírito, em ordem, e nenhuma delas é etapa de melhoria pessoal.
O camelo: o espírito que pede peso
A primeira figura é o camelo, o espírito que se ajoelha pra ser bem carregado. Ele procura o mais pesado e sente respeito por quem manda nele. Aprender a língua do outro, obedecer o que custa, aguentar o que humilha um pouco: o camelo faz por vontade própria, e o detalhe está aí.
Assim Falou Zaratustra não trata a fase como erro. A carga é aprendizado, e o deserto pra onde o camelo corre é o lugar em que a herança fica sozinha com quem a carrega.
Contra o quê: contra a fantasia de começar do zero. Ninguém pula a etapa de receber pronto o que veio antes, e o livro dá a ela uma figura inteira.
O leão: o não que abre espaço
No deserto, o camelo vira leão. O adversário aparece em forma de dragão coberto de escamas, e em cada escama brilha um "tu deves" com séculos de idade.
O leão não cria valor novo, e o livro é explícito no ponto. Ele conquista liberdade pra criar, o que é outra coisa: abre o espaço, diz não ao dever que se apresenta como eterno, troca o "tu deves" pelo "eu quero".
Um leão que só ruge fica com o deserto vazio. Daí a necessidade de uma terceira figura, e a recusa do texto em parar na rebeldia, que era onde o século 19 gostava de parar.
A criança: o sim que não pede licença
A terceira figura é a criança: inocência, esquecimento, um começar de novo, uma roda que gira sozinha, um primeiro movimento, um sagrado dizer sim. A lista é do próprio livro, e cada item corrige uma parte do leão.
Esquecimento, porque quem guarda a lista de ofensas continua preso a quem ofendeu. Roda que gira por si, porque o impulso deixa de vir do que existe pra ser negado. Dizer sim, porque criar exige afirmar alguma coisa, e negar sai barato.
A criança não é o adulto que voltou a ser ingênuo. É quem inventa o jogo, em vez de jogar o que achou pronto ou de passar a vida quebrando o tabuleiro.
O além-do-homem, e a tradução que criou a confusão
A ideia que Zaratustra desce pra anunciar é o além-do-homem, o Übermensch. A tradução por super-homem colou no personagem de quadrinhos e sugere um sujeito mais forte que os outros, o que o livro não sustenta em lugar nenhum.
O texto apresenta o homem como uma corda estendida entre o animal e o além-do-homem, uma corda sobre um abismo, e o valor fica na travessia. E amarra a ideia ao chão: o além-do-homem é o sentido da terra, contra qualquer esperança que peça pra olhar pra cima.
Nada ali descreve raça, biologia ou linhagem. A leitura biológica veio depois e de fora do livro.
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O eterno retorno: a prova que pesa a vida inteira
Na terceira parte, o livro monta a imagem de um portão onde dois caminhos infinitos se encontram, um pra trás e um pra frente, com o nome Instante escrito em cima. Se o caminho de trás não tem fim, tudo que pode acontecer já aconteceu, e volta.
O eterno retorno funciona como prova de fogo. Viver de novo a mesma vida, com a mesma dor, na mesma ordem, sem uma vírgula diferente: a questão é se você aguentaria, e se aguentaria de bom grado.
Se ele acreditava no retorno como fato do mundo ou o usava só como prova é disputa antiga entre leitores, e o próprio livro serve os dois lados: a cena do portão argumenta como cosmologia, e a reação do personagem funciona como teste. Zaratustra engasga com a ideia antes de conseguir dizer em voz alta, e o texto deixa o engasgo à vista, porque o retorno devolve tudo, inclusive o mesquinho e o que a gente preferia esquecer.
Por que justamente Zaratustra
A escolha do nome não é decorativa, e o próprio Nietzsche a explicou em Ecce Homo, o livro autobiográfico que escreveu no fim.
O Zaratustra histórico, conhecido no Ocidente também como Zoroastro, foi um profeta do mundo iraniano antigo, e a tradição religiosa ligada a ele organiza o mundo por uma oposição entre um princípio do bem e um princípio do mal, com o ser humano no meio, obrigado a escolher lado.
O argumento de Nietzsche é de justiça poética. Se foi Zaratustra quem introduziu a leitura moral do mundo, a divisão entre bem e mal como estrutura da realidade, então cabe a ele ser o primeiro a reconhecer o erro. O personagem volta, séculos depois, para desfazer o que a doutrina que leva o nome dele instalou.
Existe um segundo motivo, menos citado e igualmente explícito no texto: a honestidade. Nietzsche elogia no profeta persa a veracidade como virtude máxima, e é essa exigência de dizer a verdade, levada até o fim, que acaba se voltando contra a própria moral. O personagem escolhido não é um adversário da tradição, é alguém de dentro dela que a leva a sério demais.
A ironia fecha o círculo do livro. Quem desce da montanha para anunciar o além-do-homem carrega o nome de quem inventou a divisão que o além-do-homem existe para superar.
O estilo é parte do argumento
Ler o livro esperando prosa filosófica comum produz frustração, e a estranheza é deliberada.
A cadência imita a da Bíblia na tradução de Lutero, com vocativos, inversões, repetições rituais e capítulos curtos em forma de discurso. A escolha é polêmica em si: usar a música de um texto sagrado para dizer o oposto do que ele diz é atacar a autoridade da forma, e não apenas do conteúdo.
O uso de parábola tem a mesma função. Camelo, leão e criança não ilustram uma tese exposta antes: eles são a exposição, e o leitor precisa fazer o trabalho de interpretar, exatamente como faz diante de uma parábola religiosa. Um texto que argumentasse ponto a ponto entregaria a conclusão pronta, e o livro recusa esse serviço.
O custo do procedimento é alto e conhecido. Sem argumento explícito, o texto se presta a leituras opostas, e a história do século 20 mostrou o quanto. A recomendação prática que sobra para quem lê hoje é ler o livro acompanhado de uma obra argumentativa do mesmo autor, Além do Bem e do Mal ou a Genealogia da Moral, que dizem em prosa direta o que aqui aparece em imagem.
Linha do tempo do livro
- 1882A ideia do eterno retorno aparece pela primeira vez em A Gaia Ciência, e o personagem Zaratustra é anunciado no último parágrafo do livro.
- 1883Saem a primeira e a segunda partes, escritas em surtos curtos de trabalho separados por meses.
- 1884Sai a terceira parte, que traz a cena do portão do Instante e o desenvolvimento do eterno retorno.
- 1885A quarta parte é impressa por conta do autor, em tiragem de cerca de 40 exemplares, distribuída a um punhado de conhecidos.
- 1886 e 1887Nietzsche publica Além do Bem e do Mal e a Genealogia da Moral, que apresentam em prosa argumentativa o que o Zaratustra dizia em parábola.
- 1896Richard Strauss estreia o poema sinfônico com o título do livro, e a abertura de metais e órgão leva o nome da obra a um público que nunca a leria.
A quarta parte, impressa por conta do autor
A quarta parte não teve editora. Saiu por conta do próprio autor, em tiragem de 40 exemplares, e ele distribuiu pouquíssimos, a um punhado de conhecidos, porque as três primeiras partes tinham vendido quase nada.
O livro que hoje aparece em lista de mais lidos circulou, na última parte, como impresso particular de gaveta. A edição pública dela só veio depois, quando o nome do autor já tinha virado assunto e ele já não estava escrevendo.
Perguntas frequentes
O que são as três transformações do espírito?
Camelo, leão e criança. O camelo procura o peso e carrega a herança recebida. O leão diz não ao dever que se apresenta como eterno e conquista espaço para criar, sem criar nada ainda. A criança inventa o jogo, com esquecimento e afirmação, em vez de jogar o que achou pronto ou de passar a vida quebrando o tabuleiro.
O que significa além-do-homem?
É a tradução mais fiel de Übermensch, e descreve uma travessia, não um tipo de indivíduo superior. O livro apresenta o homem como corda estendida sobre um abismo, com o valor na passagem, e amarra a ideia ao chão ao dizer que o além-do-homem é o sentido da terra. Nada ali descreve raça, biologia ou linhagem.
Por que o livro se chama Zaratustra?
Porque, na explicação do próprio Nietzsche em Ecce Homo, foi o profeta persa quem introduziu a leitura moral do mundo como oposição entre bem e mal, e cabe a ele ser o primeiro a reconhecer o erro. Há um segundo motivo no texto: a veracidade levada até o fim é o que acaba se voltando contra a própria moral.
O que é o eterno retorno no livro?
É a imagem do portão onde dois caminhos infinitos se encontram, com o nome Instante escrito em cima, e funciona como prova de fogo: viver de novo a mesma vida, na mesma ordem, sem uma vírgula diferente. O próprio Zaratustra engasga com a ideia antes de conseguir dizê-la em voz alta.
Por que o livro é escrito como um texto religioso?
Porque a forma faz parte do ataque. A cadência imita a da Bíblia na tradução de Lutero, e usar a música de um texto sagrado para dizer o oposto do que ele diz é atacar a autoridade da forma, não só o conteúdo. As parábolas exigem interpretação do leitor em vez de entregar a conclusão pronta.
O que é territorializar a leitura do livro?
O texto se organiza por discursos curtos e imagens, e não por capítulos que dependem uns dos outros. Ler alguns discursos fora de ordem, voltando depois ao começo, costuma render mais que a leitura linear, porque cada peça se sustenta sozinha e ganha sentido no conjunto.
É um bom primeiro livro de Nietzsche?
Não costuma ser. Sem argumento explícito, ele se presta a leituras opostas, e vale lê-lo acompanhado de uma obra argumentativa do mesmo autor, como Além do Bem e do Mal ou a Genealogia da Moral, que dizem em prosa direta o que aqui aparece em imagem.
Quem é o personagem que desce da montanha?
Um solitário que passou anos no alto e resolve descer carregando uma ideia para entregar aos homens, sem conseguir ser ouvido em quase todo o livro. O subtítulo já avisa em que mão a coisa cai: um livro para todos e para ninguém.
Por que a quarta parte foi impressa pelo autor?
Porque as três primeiras venderam quase nada e nenhuma editora se interessou. Ele bancou uma tiragem de cerca de 40 exemplares e distribuiu pouquíssimos, a conhecidos. A edição pública só veio quando o nome dele já tinha virado assunto, e ele já não estava escrevendo.
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