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Deleuze: pensar por rizoma, e não por árvore

Por Redação Filosofia do Dia · Ideias · Leitura de 11 minutos

Um novelo de barbante desenrolado em várias direções sobre folha de papel fosco em branco numa mesa escura, uma única luminária quente vindo da esquerda alta, sombra longa e baixa esticando pra direita, fundo breu de ameixa e púrpura clara como a única cor viva

Deleuze não deixou um sistema pra você aderir. Deixou conceitos que funcionam como ferramenta, cada um feito sob medida pra um problema específico. A definição está em O Que é a Filosofia?: filosofia é a atividade de criar conceitos, e não de contemplar, refletir ou comunicar.

Ferramenta se avalia pelo serviço que presta. Diante de cada termo abaixo, a pergunta útil não é o que ele significa em geral, e sim o que ele deixa ver que a linguagem comum esconde.

Quatro deles bastam pra entrar. Saem de livros diferentes, dois escritos sozinho e dois com Félix Guattari, e cada um chega com o adversário que provocou a invenção.

Rizoma contra árvore: o mapa que não tem tronco

Na abertura de Mil Platôs, o alvo tem nome: o livro-raiz, aquele que imita o mundo desenhando um tronco de onde tudo deriva. A árvore genealógica, o organograma e a classificação por gênero e espécie repetem a mesma figura, com uma origem no pé e uma hierarquia subindo.

O rizoma é o nome botânico do caule que cresce deitado embaixo da terra, como no capim e no gengibre, mandando brotos pra qualquer lado. Num rizoma, qualquer ponto se conecta a qualquer outro, e cortar um pedaço não mata o conjunto: a linha rompida recomeça em outro lugar.

A diferença prática está entre decalque e mapa. O decalque copia uma estrutura que já se supõe pronta, e sempre encontra o que foi procurar. O mapa se faz na experimentação, tem várias entradas e pode ser refeito. Uma conversa, uma cidade e um campo de estudo se comportam bem mais como rizoma do que como árvore.

Diferença contra identidade: a repetição que nunca repete igual

Diferença e Repetição ataca um hábito de dois mil anos. A filosofia pensou a diferença como diferença entre duas coisas já identificadas: primeiro a identidade, depois a comparação. Diferir era sempre ser diferente de alguma coisa.

Deleuze inverte a ordem. Ele quer a diferença em si, anterior a qualquer identidade, e trata a identidade como efeito estabilizado, e não como ponto de partida. O que a representação faz, no argumento dele, é domesticar a diferença prendendo ela a quatro coleiras: identidade, semelhança, analogia e oposição.

A repetição entra pelo mesmo raciocínio. Duas execuções da mesma sonata não são idênticas, e a segunda carrega a primeira dentro dela. Repetir nunca devolve o mesmo, e o que interessa é a diferença que aparece na repetição, não a parte que se conservou.

Agenciamento: nada funciona sozinho

Agencement, em francês, quer dizer arranjo, o modo como peças foram montadas juntas. Em português a tradução consagrada é agenciamento, e o conceito recusa a análise que começa isolando os elementos pra descrever cada um por dentro.

O exemplo está na própria abertura de Mil Platôs: a vespa e a orquídea. A flor reproduz a forma da vespa, a vespa carrega o pólen, e nenhuma das duas explica sozinha o que acontece, porque o que existe ali é o conjunto vespa-orquídea em funcionamento. Trocar a lente do organismo pela lente do arranjo muda o que conta como unidade.

O adversário é a substância isolada, com propriedades próprias e fronteira nítida, e junto dela vai o sujeito tratado como origem da ação. Numa sala de aula, num escritório ou numa cozinha, o que produz o resultado é a montagem inteira: corpos, ferramentas, palavras de ordem e horários engatados uns nos outros.

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O virtual: real sem ser atual

O virtual costuma ser confundido com o possível, e a confusão apaga o conceito. Em Diferença e Repetição, o virtual se opõe ao atual, jamais ao real: ele é inteiramente real, apenas não está atualizado. A fórmula que Deleuze toma emprestada de Proust resume: real sem ser atual, ideal sem ser abstrato.

O contraste com o possível é o teste. O possível é fabricado depois, à imagem do real que já aconteceu, e a passagem dele ao real não acrescenta nada além da existência. O virtual se atualiza criando: as linhas por onde ele se resolve não estavam desenhadas antes, e a atualização é invenção, não cópia.

Um problema bem formulado é o caso mais limpo. Ele é real, tem estrutura, orienta o trabalho de quem tenta resolvê-lo, e mesmo assim não coincide com nenhuma das soluções que virão depois. Deleuze credita a distinção a Bergson, e dedicou o livro Bergsonismo a desmontar o ponto.

Dois termos que assustam, e o que cada um resolve

O vocabulário afasta leitores, e boa parte dos termos assustadores nomeia coisas simples de reconhecer.

O primeiro é territorialização, com os dois movimentos que a acompanham. Territorializar é fixar um arranjo: um pássaro que canta e delimita um espaço, uma empresa que estabiliza um mercado, uma disciplina que fecha o próprio objeto. Desterritorializar é o movimento que solta o arranjo do território, e reterritorializar é o que o fixa de novo em outro lugar. Os três não são fases de uma história: acontecem ao mesmo tempo, e o interessante é medir qual predomina num caso concreto.

O segundo é o corpo sem órgãos, expressão que Deleuze e Guattari tomam emprestada do poeta Antonin Artaud. Ela não descreve um corpo sem fígado. Descreve um corpo antes da distribuição de funções fixas, um estado em que os órgãos ainda não foram organizados numa hierarquia com finalidade única. O adversário é o organismo entendido como plano definitivo: aquilo que decide o que cada parte pode fazer e proíbe o resto.

Os dois conceitos operam juntos e servem fora da filosofia. Toda instituição funciona distribuindo funções fixas e todo processo criativo depende de suspender parte dessa distribuição por um tempo. Nomear os dois movimentos permite perguntar, diante de qualquer arranjo, o que ele fixou, o que ele soltou e para onde a coisa fixou de novo.

Como ler sem travar

Os livros não foram feitos para leitura linear, e três procedimentos diminuem bastante o atrito.

O primeiro é começar pelos livros sobre outros autores. Antes das obras próprias, Deleuze escreveu sobre Hume, Nietzsche, Bergson, Espinosa e Kant, e esses volumes são mais claros porque precisam expor a posição alheia antes de puxá-la para o lado dele. O pequeno livro sobre Espinosa e o sobre Nietzsche funcionam como porta de entrada.

O segundo é tratar os capítulos de Mil Platôs como platôs mesmo, unidades que podem ser lidas em qualquer ordem, o que o próprio prefácio autoriza. Ler do começo ao fim porque um livro tem páginas numeradas é aplicar ao texto justamente a lógica de árvore que ele ataca.

O terceiro é usar o critério de ferramenta. Diante de um conceito, em vez de perguntar o que ele significa em geral, aplique-o a um caso concreto que você conheça bem e veja o que ele mostra que a descrição comum não mostrava. Conceito que não faz ver nada de novo naquele caso pode ser deixado de lado sem culpa.

Vale um aviso final sobre companhia de leitura. Os textos escritos com Guattari são deliberadamente mais selvagens que os assinados sozinho, e quem começa por O Anti-Édipo costuma concluir que o autor é obscuro por opção, quando o livro é polêmico por projeto.

Linha do tempo de Gilles Deleuze

  1. 1925Nasce em Paris, onde estudaria e passaria a maior parte da vida.
  2. 1953Publica o primeiro livro, sobre a teoria da natureza humana em Hume, abrindo a série de estudos sobre outros filósofos.
  3. 1962Sai Nietzsche e a Filosofia, obra que muda a recepção francesa de Nietzsche e o afasta das leituras políticas que dominavam o período.
  4. 1968Defende como tese principal Diferença e Repetição, o livro em que apresenta a diferença anterior à identidade e a distinção entre virtual e possível.
  5. 1972 e 1980Publica com Félix Guattari os dois volumes de Capitalismo e Esquizofrenia, O Anti-Édipo e Mil Platôs, de onde saem rizoma, agenciamento e corpo sem órgãos.
  6. 1991Assina com Guattari O Que é a Filosofia?, que define a filosofia como criação de conceitos. Morre em 1995, em Paris.

Dois autores, e já era muita gente

O Anti-Édipo e Mil Platôs saíram assinados por dois nomes: Deleuze e Félix Guattari, psicanalista ligado ao círculo de Lacan e à clínica de La Borde. A abertura de Mil Platôs comenta a parceria em duas linhas que viraram a descrição oficial do método dos dois: escreveram juntos e, como cada um deles já era vários, ali havia bastante gente.

O comentário carrega a tese do livro. Se o sujeito já é uma multidão de conexões, a assinatura dupla deixa de ser soma de duas cabeças e passa a ser o arranjo que produziu o texto. Perguntados na mesma página por que mantiveram os próprios nomes na capa, responderam que foi por hábito, apenas por hábito.

Perguntas frequentes

O que é rizoma?

É o nome botânico do caule que cresce deitado sob a terra, como no capim e no gengibre, usado por Deleuze e Guattari contra a figura da árvore. Num rizoma qualquer ponto se conecta a qualquer outro, e cortar um pedaço não mata o conjunto. O contrário dele é o livro-raiz, com uma origem no pé e hierarquia subindo.

Qual a diferença entre mapa e decalque?

O decalque copia uma estrutura que já se supõe pronta e sempre encontra o que foi procurar. O mapa se faz na experimentação, tem várias entradas e pode ser refeito. A distinção é a versão prática da oposição entre rizoma e árvore, e serve para avaliar qualquer método de análise.

O que Deleuze quer dizer com diferença?

A diferença anterior a qualquer identidade, e não a diferença entre duas coisas já identificadas. A tradição pensava primeiro a identidade e depois a comparação; ele inverte a ordem e trata a identidade como efeito estabilizado, argumentando que a representação domestica a diferença prendendo-a a identidade, semelhança, analogia e oposição.

O que é o virtual?

É o que é real sem ser atual, na fórmula que ele toma de Proust. O virtual se opõe ao atual, jamais ao real, e se distingue do possível: o possível é fabricado depois, à imagem do real que já aconteceu, enquanto o virtual se atualiza criando linhas que não estavam desenhadas antes. Um problema bem formulado é o exemplo mais limpo.

O que é um agenciamento?

É o arranjo, o modo como peças foram montadas juntas, e o conceito recusa a análise que isola elementos. O exemplo do livro é a vespa e a orquídea: nenhuma das duas explica sozinha o que acontece, porque o que existe é o conjunto em funcionamento. Numa sala de aula ou num escritório, quem produz o resultado é a montagem inteira.

O que é corpo sem órgãos?

Expressão tomada de Antonin Artaud que descreve um corpo antes da distribuição de funções fixas, e não um corpo sem vísceras. O adversário é o organismo entendido como plano definitivo, aquilo que decide o que cada parte pode fazer e proíbe o resto.

O que é desterritorialização?

É o movimento que solta um arranjo do território em que ele estava fixado, acompanhado sempre de uma reterritorialização, a fixação em outro lugar. Os três movimentos acontecem ao mesmo tempo em qualquer processo, e o útil é medir qual predomina num caso concreto.

Por onde começar a ler Deleuze?

Pelos livros que ele escreveu sobre outros filósofos, mais claros porque precisam expor a posição alheia antes de puxá-la. Os volumes sobre Espinosa e sobre Nietzsche funcionam bem como entrada. Mil Platôs pode ser lido em qualquer ordem, e O Anti-Édipo é polêmico por projeto, o que costuma dar má primeira impressão.

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