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Deleuze: pensar por rizoma, e não por árvore

Ideias · Leitura de 5 minutos

Um novelo de barbante desenrolado em várias direções sobre folha de papel fosco em branco numa mesa escura, uma única luminária quente vindo da esquerda alta, sombra longa e baixa esticando pra direita, fundo breu de ameixa e púrpura clara como a única cor viva

Deleuze não deixou um sistema pra você aderir. Deixou conceitos que funcionam como ferramenta, cada um feito sob medida pra um problema específico. A definição está em O Que é a Filosofia?: filosofia é a atividade de criar conceitos, e não de contemplar, refletir ou comunicar.

Ferramenta se avalia pelo serviço que presta. Diante de cada termo abaixo, a pergunta útil não é o que ele significa em geral, e sim o que ele deixa ver que a linguagem comum esconde.

Quatro deles bastam pra entrar. Saem de livros diferentes, dois escritos sozinho e dois com Félix Guattari, e cada um chega com o adversário que provocou a invenção.

Rizoma contra árvore: o mapa que não tem tronco

Na abertura de Mil Platôs, o alvo tem nome: o livro-raiz, aquele que imita o mundo desenhando um tronco de onde tudo deriva. A árvore genealógica, o organograma e a classificação por gênero e espécie repetem a mesma figura, com uma origem no pé e uma hierarquia subindo.

O rizoma é o nome botânico do caule que cresce deitado embaixo da terra, como no capim e no gengibre, mandando brotos pra qualquer lado. Num rizoma, qualquer ponto se conecta a qualquer outro, e cortar um pedaço não mata o conjunto: a linha rompida recomeça em outro lugar.

A diferença prática está entre decalque e mapa. O decalque copia uma estrutura que já se supõe pronta, e sempre encontra o que foi procurar. O mapa se faz na experimentação, tem várias entradas e pode ser refeito. Uma conversa, uma cidade e um campo de estudo se comportam bem mais como rizoma do que como árvore.

Diferença contra identidade: a repetição que nunca repete igual

Diferença e Repetição ataca um hábito de dois mil anos. A filosofia pensou a diferença como diferença entre duas coisas já identificadas: primeiro a identidade, depois a comparação. Diferir era sempre ser diferente de alguma coisa.

Deleuze inverte a ordem. Ele quer a diferença em si, anterior a qualquer identidade, e trata a identidade como efeito estabilizado, e não como ponto de partida. O que a representação faz, no argumento dele, é domesticar a diferença prendendo ela a quatro coleiras: identidade, semelhança, analogia e oposição.

A repetição entra pelo mesmo raciocínio. Duas execuções da mesma sonata não são idênticas, e a segunda carrega a primeira dentro dela. Repetir nunca devolve o mesmo, e o que interessa é a diferença que aparece na repetição, não a parte que se conservou.

Agenciamento: nada funciona sozinho

Agencement, em francês, quer dizer arranjo, o modo como peças foram montadas juntas. Em português a tradução consagrada é agenciamento, e o conceito recusa a análise que começa isolando os elementos pra descrever cada um por dentro.

O exemplo está na própria abertura de Mil Platôs: a vespa e a orquídea. A flor reproduz a forma da vespa, a vespa carrega o pólen, e nenhuma das duas explica sozinha o que acontece, porque o que existe ali é o conjunto vespa-orquídea em funcionamento. Trocar a lente do organismo pela lente do arranjo muda o que conta como unidade.

O adversário é a substância isolada, com propriedades próprias e fronteira nítida, e junto dela vai o sujeito tratado como origem da ação. Numa sala de aula, num escritório ou numa cozinha, o que produz o resultado é a montagem inteira: corpos, ferramentas, palavras de ordem e horários engatados uns nos outros.

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O virtual: real sem ser atual

O virtual costuma ser confundido com o possível, e a confusão apaga o conceito. Em Diferença e Repetição, o virtual se opõe ao atual, jamais ao real: ele é inteiramente real, apenas não está atualizado. A fórmula que Deleuze toma emprestada de Proust resume: real sem ser atual, ideal sem ser abstrato.

O contraste com o possível é o teste. O possível é fabricado depois, à imagem do real que já aconteceu, e a passagem dele ao real não acrescenta nada além da existência. O virtual se atualiza criando: as linhas por onde ele se resolve não estavam desenhadas antes, e a atualização é invenção, não cópia.

Um problema bem formulado é o caso mais limpo. Ele é real, tem estrutura, orienta o trabalho de quem tenta resolvê-lo, e mesmo assim não coincide com nenhuma das soluções que virão depois. Deleuze credita a distinção a Bergson, e dedicou o livro Bergsonismo a desmontar o ponto.

Dois autores, e já era muita gente

O Anti-Édipo e Mil Platôs saíram assinados por dois nomes: Deleuze e Félix Guattari, psicanalista ligado ao círculo de Lacan e à clínica de La Borde. A abertura de Mil Platôs comenta a parceria em duas linhas que viraram a descrição oficial do método dos dois: escreveram juntos e, como cada um deles já era vários, ali havia bastante gente.

O comentário carrega a tese do livro. Se o sujeito já é uma multidão de conexões, a assinatura dupla deixa de ser soma de duas cabeças e passa a ser o arranjo que produziu o texto. Perguntados na mesma página por que mantiveram os próprios nomes na capa, responderam que foi por hábito, apenas por hábito.

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