A ideia · Pensador

Schopenhauer: o pêndulo entre a dor e o tédio

Por Redação Filosofia do Dia · Ideias · Leitura de 11 minutos

Pêndulo de metal parado, pendurado sobre uma folha de papel fosco em branco numa mesa escura, luminária quente vindo só da esquerda alta, sombra longa e baixa esticando pra direita e fundo breu de ameixa com um acento púrpura claro

O nome dele circula em frase de fundo escuro, quase sempre sem obra e às vezes sem ele. Arthur Schopenhauer escreveu um sistema só, num livro só, e as frases que viralizam são pedaços soltos de um argumento em degraus.

O argumento é uma escada curta. O mundo é representação, a representação tem um avesso chamado vontade, a vontade condena quem a carrega a oscilar entre dois estados ruins, e existem duas saídas, ambas estreitas.

O Mundo como Vontade e Representação, publicado no começo do século 19 e ampliado depois com um segundo volume de complementos, é o endereço de tudo que vem a seguir.

Primeiro degrau: o mundo é representação

A frase de abertura do livro é o primeiro degrau: o mundo é minha representação. O que você chama de mundo chega sempre por um aparelho de conhecer, com espaço, tempo e causa já embutidos no aparelho, e não no mundo.

Schopenhauer herda o problema de Kant, que tinha separado o fenômeno, o que aparece pra nós, da coisa em si, o que a coisa é fora do nosso alcance. A herança vem com uma queixa: Kant deixou a coisa em si trancada, e um mundo com porta trancada explica pouco.

Contra o quê: contra a filosofia que tratava o mundo percebido como retrato fiel do mundo. Aqui o retrato sai com as lentes de quem retrata, e as lentes não saem.

Segundo degrau: o avesso do mundo é vontade

A porta trancada tem uma fresta, e a fresta é o corpo. Você conhece o próprio corpo por fora, como objeto entre objetos, e por dentro, como querer que se move. Pelo lado de dentro, diz o livro, o que aparece como corpo é vontade.

O termo engana em português. A vontade dele não é escolha, plano nem desejo consciente: é um impulso cego e sem finalidade, o mesmo que aparece na pedra que cai, na planta que procura luz e no bicho que caça, e que em nós ganha a companhia inconveniente da consciência.

Contra o quê: contra a imagem de um mundo governado por razão e por finalidade. Um mundo movido por impulso cego não caminha pra lugar nenhum, ele apenas continua.

Terceiro degrau: o pêndulo entre a dor e o tédio

Querer supõe faltar, e faltar dói. Toda satisfação é o fim de uma falta, dura pouco e devolve o vazio, porque a vontade não tem alvo final. Quando a falta some sem que outra chegue no lugar, chega o tédio, que o livro leva tão a sério quanto a dor.

O quarto livro de O Mundo como Vontade e Representação fecha a imagem que virou a frase mais repetida dele: a vida oscila como um pêndulo, de um lado pro outro, entre a dor e o tédio. Quem tem o dia comprado enfrenta o tédio, e quem não tem enfrenta a falta.

O prazer, no argumento dele, é sempre negativo, no sentido de ser a ausência de um incômodo, e nunca uma coisa positiva que se acumula. É por aí que a felicidade planejada falha: ela promete somar o que só sabe subtrair.

As duas saídas, e nenhuma delas é conselho

A primeira saída é estética. Diante de uma obra, a atenção larga o interesse por um tempo, e quem olha vira, na expressão do livro, puro sujeito do conhecer, sem nada a ganhar ali. O terceiro livro dá à música um lugar à parte: as outras artes copiam as formas do mundo, e a música copia a vontade direto, o que explica por que ela mexe sem contar história.

A segunda saída é a negação da vontade: o asceta, o santo, quem para de querer em vez de querer melhor. O livro descreve o caminho, admira quem o toma, faz questão de dizer que não se trata de decisão da razão, e não receita nada a ninguém.

As duas saídas são suspensões, uma curta e uma radical. Nenhuma promete felicidade, e a distância entre suspender o querer e satisfazer o querer sustenta o sistema inteiro.

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As frases que circulam com o nome dele

A mais compartilhada diz que toda verdade passa por três fases: primeiro ridicularizada, depois combatida com violência, por fim aceita como evidente. Ninguém encontrou a frase em obra nenhuma dele, e a atribuição se sustenta em repetição, não em página.

O contraste vale a leitura. A parábola dos porcos-espinhos, que se aproximam por causa do frio, se picam, se afastam e acabam achando a distância média que a boa educação depois formaliza, está em Parerga e Paralipomena, o volume de ensaios curtos que deu a ele a fama tardia.

Nietzsche o leu cedo e passou boa parte da obra escrevendo contra ele, que é a prova de leitura mais barulhenta que um filósofo pode receber.

O degrau zero: a quádrupla raiz

Antes do livro grande existe uma tese de doutorado, e ela é o degrau que a maioria das apresentações pula.

Em Sobre a Quádrupla Raiz do Princípio de Razão Suficiente, Schopenhauer examina o princípio segundo o qual nada existe sem uma razão que explique por que existe assim e não de outro modo. A tese dele é que o princípio não é um só: ele opera de quatro maneiras distintas, e confundi-las produz boa parte dos erros da filosofia.

A primeira forma é a do devir, e governa as mudanças no mundo físico: aqui a razão de algo é a causa que o produziu. A segunda é a do conhecer, e governa os juízos: a razão de uma afirmação é o fundamento que a sustenta. A terceira é a do ser, e governa as relações no espaço e no tempo, como as que a geometria estuda. A quarta é a do agir, e governa a conduta: a razão de uma ação é o motivo que a moveu.

A separação tem consequência direta no sistema. Causa e motivo passam a ser espécies diferentes de razão, e perguntar pela causa da vontade vira pergunta mal formada, porque a vontade não está dentro do mundo dos fenômenos onde a causalidade opera.

O próprio autor deixou o aviso escrito: quem lesse o livro maior sem ter lido a tese não entenderia o argumento. É recomendação de autor, e é também descrição correta do que acontece.

Linha do tempo de Schopenhauer

  1. 1788Nasce em Danzig, filho de um comerciante próspero e de uma escritora que teria carreira literária de sucesso, relação que ele romperia anos depois.
  2. 1813Defende a tese Sobre a Quádrupla Raiz do Princípio de Razão Suficiente, que ele mesmo trataria como pórtico obrigatório do sistema.
  3. 1818Conclui O Mundo como Vontade e Representação, publicado na virada para 1819. As vendas são pífias e a obra passa quase despercebida.
  4. 1820Torna-se docente em Berlim e marca as próprias aulas no mesmo horário das de Hegel, então no auge do prestígio. A sala dele esvazia, e o episódio alimenta a hostilidade ao idealismo alemão que atravessa a obra.
  5. 1844Sai a segunda edição do livro, agora com um volume inteiro de complementos, e o sistema ganha a forma final.
  6. 1851Publica Parerga e Paralipomena, ensaios curtos que finalmente lhe trazem público. Morre em Frankfurt em 1860, com a fama chegando nos últimos anos de vida.

A herança: três leituras que saíram dali

O sistema teve pouca aceitação acadêmica e influência larga fora dela, em três direções distintas.

A primeira é filosófica. Nietzsche o leu na juventude e passou a obra madura escrevendo contra ele, o que é a forma mais barulhenta de reconhecer uma dívida. A discordância tem endereço preciso: onde Schopenhauer vê na compaixão o fundamento da moral, Nietzsche vê um sintoma, e a inversão organiza boa parte de O Anticristo.

A segunda é artística. Richard Wagner leu o livro em meados do século 19 e o adotou, e a tese sobre a música, que a coloca acima das outras artes por copiar a vontade diretamente, virou justificativa estética para uma geração inteira de compositores e escritores.

A terceira é psicológica. A ideia de um impulso cego que move o organismo e ao qual o intelecto serve como instrumento antecipa, em vocabulário próprio, a virada que a psicanálise faria décadas depois ao tratar a consciência como parte pequena de um aparelho maior. Freud reconheceu a proximidade em mais de uma ocasião, com a ressalva de ter chegado ali por outro caminho.

O que as três compartilham é o mesmo deslocamento: parar de tratar a razão como dona da casa e passar a tratá-la como funcionária de algo que não a consulta.

O que ficava na escrivaninha dele

Ele lia os Upanixades, o texto indiano antigo, numa tradução latina feita a partir do persa, e dizia que aquela leitura tinha sido o consolo da vida dele. Foi um dos primeiros filósofos europeus a puxar o pensamento da Índia pra dentro do próprio sistema, e encontrou ali a mesma vontade cega que descrevia em alemão.

Na escrivaninha, entre os livros, ficava uma estatueta dourada de Buda. O sistema mais sombrio da filosofia alemã foi escrito na frente de uma figura sentada em calma.

Perguntas frequentes

O que Schopenhauer quer dizer com vontade?

Não é escolha, plano nem desejo consciente. É um impulso cego e sem finalidade, o mesmo que aparece na pedra que cai, na planta que procura luz e no animal que caça, e que em nós ganha a companhia da consciência. O corpo é a fresta pela qual conhecemos esse avesso por dentro.

O que é o pêndulo entre a dor e o tédio?

Querer supõe faltar, e faltar dói; satisfeita a falta, ela dura pouco e devolve o vazio, porque a vontade não tem alvo final. Quando nenhuma falta nova chega, entra o tédio. A vida oscila entre os dois estados, e o prazer, no argumento dele, é sempre a ausência de um incômodo, nunca algo que se acumule.

Quais são as saídas que ele propõe?

Duas, e nenhuma é conselho de vida. A estética, em que a atenção diante de uma obra larga o interesse por um tempo, com a música ocupando lugar à parte por copiar a vontade diretamente. E a negação da vontade, o caminho do asceta, que o livro descreve e admira sem receitar, ressalvando que não se trata de decisão da razão.

Schopenhauer era pessimista?

O rótulo cabe no resultado e não no método. O argumento é sistemático e parte de uma tese sobre o que o mundo é, não de um temperamento: se o que move tudo é impulso cego sem finalidade, a insatisfação deixa de ser acidente biográfico e vira consequência estrutural.

A frase sobre as três fases da verdade é dele?

Não há registro dela em obra nenhuma de Schopenhauer. A atribuição se sustenta em repetição, não em página. Já a parábola dos porcos-espinhos, que se aproximam pelo frio, se picam e acabam achando a distância média, está de fato em Parerga e Paralipomena.

Qual a relação dele com a filosofia oriental?

Ele lia os Upanixades numa tradução latina feita a partir do persa e dizia que a leitura tinha sido o consolo da vida dele. Foi um dos primeiros filósofos europeus a incorporar o pensamento indiano ao próprio sistema, encontrando ali a mesma vontade cega que descrevia em alemão.

Por onde começar a ler Schopenhauer?

Por Parerga e Paralipomena, os ensaios curtos que lhe deram fama tardia e não exigem o sistema inteiro. Para ir ao livro maior, o próprio autor recomendava ler antes a tese sobre a quádrupla raiz do princípio de razão suficiente, que separa causa de motivo e sustenta o resto do argumento.

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