A ideia · Pensador

Schopenhauer: o pêndulo entre a dor e o tédio

Ideias · Leitura de 5 minutos

Pêndulo de metal parado, pendurado sobre uma folha de papel fosco em branco numa mesa escura, luminária quente vindo só da esquerda alta, sombra longa e baixa esticando pra direita e fundo breu de ameixa com um acento púrpura claro

O nome dele circula em frase de fundo escuro, quase sempre sem obra e às vezes sem ele. Arthur Schopenhauer escreveu um sistema só, num livro só, e as frases que viralizam são pedaços soltos de um argumento em degraus.

O argumento é uma escada curta. O mundo é representação, a representação tem um avesso chamado vontade, a vontade condena quem a carrega a oscilar entre dois estados ruins, e existem duas saídas, ambas estreitas.

O Mundo como Vontade e Representação, publicado no começo do século 19 e ampliado depois com um segundo volume de complementos, é o endereço de tudo que vem a seguir.

Primeiro degrau: o mundo é representação

A frase de abertura do livro é o primeiro degrau: o mundo é minha representação. O que você chama de mundo chega sempre por um aparelho de conhecer, com espaço, tempo e causa já embutidos no aparelho, e não no mundo.

Schopenhauer herda o problema de Kant, que tinha separado o fenômeno, o que aparece pra nós, da coisa em si, o que a coisa é fora do nosso alcance. A herança vem com uma queixa: Kant deixou a coisa em si trancada, e um mundo com porta trancada explica pouco.

Contra o quê: contra a filosofia que tratava o mundo percebido como retrato fiel do mundo. Aqui o retrato sai com as lentes de quem retrata, e as lentes não saem.

Segundo degrau: o avesso do mundo é vontade

A porta trancada tem uma fresta, e a fresta é o corpo. Você conhece o próprio corpo por fora, como objeto entre objetos, e por dentro, como querer que se move. Pelo lado de dentro, diz o livro, o que aparece como corpo é vontade.

O termo engana em português. A vontade dele não é escolha, plano nem desejo consciente: é um impulso cego e sem finalidade, o mesmo que aparece na pedra que cai, na planta que procura luz e no bicho que caça, e que em nós ganha a companhia inconveniente da consciência.

Contra o quê: contra a imagem de um mundo governado por razão e por finalidade. Um mundo movido por impulso cego não caminha pra lugar nenhum, ele apenas continua.

Terceiro degrau: o pêndulo entre a dor e o tédio

Querer supõe faltar, e faltar dói. Toda satisfação é o fim de uma falta, dura pouco e devolve o vazio, porque a vontade não tem alvo final. Quando a falta some sem que outra chegue no lugar, chega o tédio, que o livro leva tão a sério quanto a dor.

O quarto livro de O Mundo como Vontade e Representação fecha a imagem que virou a frase mais repetida dele: a vida oscila como um pêndulo, de um lado pro outro, entre a dor e o tédio. Quem tem o dia comprado enfrenta o tédio, e quem não tem enfrenta a falta.

O prazer, no argumento dele, é sempre negativo, no sentido de ser a ausência de um incômodo, e nunca uma coisa positiva que se acumula. É por aí que a felicidade planejada falha: ela promete somar o que só sabe subtrair.

As duas saídas, e nenhuma delas é conselho

A primeira saída é estética. Diante de uma obra, a atenção larga o interesse por um tempo, e quem olha vira, na expressão do livro, puro sujeito do conhecer, sem nada a ganhar ali. O terceiro livro dá à música um lugar à parte: as outras artes copiam as formas do mundo, e a música copia a vontade direto, o que explica por que ela mexe sem contar história.

A segunda saída é a negação da vontade: o asceta, o santo, quem para de querer em vez de querer melhor. O livro descreve o caminho, admira quem o toma, faz questão de dizer que não se trata de decisão da razão, e não receita nada a ninguém.

As duas saídas são suspensões, uma curta e uma radical. Nenhuma promete felicidade, e a distância entre suspender o querer e satisfazer o querer sustenta o sistema inteiro.

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As frases que circulam com o nome dele

A mais compartilhada diz que toda verdade passa por três fases: primeiro ridicularizada, depois combatida com violência, por fim aceita como evidente. Ninguém encontrou a frase em obra nenhuma dele, e a atribuição se sustenta em repetição, não em página.

O contraste vale a leitura. A parábola dos porcos-espinhos, que se aproximam por causa do frio, se picam, se afastam e acabam achando a distância média que a boa educação depois formaliza, está em Parerga e Paralipomena, o volume de ensaios curtos que deu a ele a fama tardia.

Nietzsche o leu cedo e passou boa parte da obra escrevendo contra ele, que é a prova de leitura mais barulhenta que um filósofo pode receber.

O que ficava na escrivaninha dele

Ele lia os Upanixades, o texto indiano antigo, numa tradução latina feita a partir do persa, e dizia que aquela leitura tinha sido o consolo da vida dele. Foi um dos primeiros filósofos europeus a puxar o pensamento da Índia pra dentro do próprio sistema, e encontrou ali a mesma vontade cega que descrevia em alemão.

Na escrivaninha, entre os livros, ficava uma estatueta dourada de Buda. O sistema mais sombrio da filosofia alemã foi escrito na frente de uma figura sentada em calma.

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