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Sócrates: o método que só faz perguntas, e por que funciona

Ideias · Leitura de 5 minutos

Uma xícara vazia e virada de boca para baixo ao lado da folha de papel fosco em branco numa mesa escura, sob a luminária quente vinda da esquerda alta, com sombra longa e baixa esticando pra direita, fundo breu de ameixa e púrpura clara como única cor viva

Sócrates não ensinava nada. Ele perguntava, e a conversa fazia o resto do serviço sozinha.

O método aparece nos diálogos que Platão escreveu, sempre com a mesma coreografia. Alguém afirma saber o que é a coragem, a piedade ou a virtude. Sócrates pede a definição. Quatro movimentos depois, a certeza saiu do lugar e não voltou.

O nome antigo do procedimento é elenchos, a refutação montada com as respostas do próprio interlocutor. Nenhuma tese entra de fora.

A pergunta ingênua: alguém sabe, e ele quer aprender

No Êutifron, o encontro acontece nos degraus do tribunal. Êutifron vai processar o próprio pai, tem certeza de que a ação é piedosa e se apresenta como quem entende do assunto melhor que a cidade toda.

Sócrates trata a certeza alheia como sorte grande: finalmente alguém capaz de ensinar. A pergunta sai desarmada, quase burocrática, e é a única do diálogo que não machuca ninguém.

A ingenuidade é técnica. Quem pergunta não assume tese, então não tem nada a defender quando a conversa apertar.

A definição: o exemplo não serve

Êutifron responde com o caso dele. Piedoso é o que estou fazendo agora, processar quem cometeu um crime. Sócrates recusa a resposta e explica a recusa: ele não pediu um exemplo de ação piedosa, pediu a marca comum que faz todas as ações piedosas serem piedosas.

A exigência parece pedantismo e é o coração do método. Sem a marca comum, você reconhece casos parecidos com os que já viu e trava diante do caso novo. Com ela na mão, você tem critério.

O nome da exigência é definição, no sentido de régua que separa todos os casos, jamais no sentido de sinônimo de dicionário.

A contradição: as respostas do outro se cruzam

Êutifron tenta de novo. Piedoso é o que agrada aos deuses. Sócrates lembra que os deuses gregos vivem brigando entre si, e uma mesma ação agradaria a uns e desagradaria a outros, ficando piedosa e ímpia ao mesmo tempo.

Corrigida a definição para o que agrada a todos os deuses, chega a pergunta que ficou famosa com o nome do personagem: o piedoso é amado pelos deuses porque é piedoso, ou é piedoso porque eles o amam?

As duas saídas custam caro. Na primeira, a piedade tem medida própria e os deuses apenas a reconhecem. Na segunda, a piedade vira decisão de quem tem poder, e poderia ser outra coisa amanhã de manhã. A refutação não trouxe tese nova, apenas mostrou que as respostas do próprio Êutifron não cabem juntas.

A aporia: o diálogo acaba sem resposta

O Êutifron termina sem definição nenhuma. O personagem alega pressa e vai embora, e a pergunta continua aberta na página, do mesmo tamanho que estava no começo.

A saída sem saída tem nome grego, aporia, o caminho sem passagem. Ela é o produto do método, não a falha dele. O interlocutor entrou achando que sabia e saiu sabendo que não sabia, que é uma posição bem melhor para quem pretende aprender.

No Mênon, o interlocutor compara Sócrates a uma arraia elétrica, o bicho que deixa dormente quem encosta. A imagem é elogio e queixa na mesma frase.

E a frase mais repetida com o nome dele, "só sei que nada sei", não aparece assim nos diálogos. Na Apologia, a formulação é mais modesta e mais precisa: o que ele não sabe, tampouco pensa saber.

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O julgamento: quando o método virou acusação

A acusação registrada na Apologia tem duas frentes. A religiosa, de não reconhecer os deuses da cidade e introduzir divindades novas. E a civil, de corromper a juventude.

Sócrates liga a acusação ao método. Ele conta que foi conferir a resposta do oráculo de Delfos sobre não haver ninguém mais sábio, saiu perguntando aos homens de reputação firmada, e mostrou em praça pública que a reputação não se sustentava sob exame. Cada demonstração dessas rendeu um inimigo com memória longa.

Condenado, ele recusa o papel de réu arrependido. Chega a propor, como pena, ser alimentado às custas da cidade no Pritaneu, honra reservada aos vencedores dos jogos. O júri respondeu com a pena capital.

Por que ele nunca escreveu

Sócrates não deixou uma linha escrita. No Fedro, Platão põe na boca dele a objeção ao texto: o escrito repete sempre a mesma coisa, não sabe a quem está respondendo, e dá aparência de saber a quem apenas decorou.

A objeção combina com o método. Uma refutação precisa da pessoa na frente, das respostas dela e do instante exato em que a contradição aparece. Nenhuma dessas peças cabe numa folha parada.

O preço apareceu depois. Quem não escreve fica dependendo de quem escreveu, e o retrato dele chegou até você por outras mãos.

As três testemunhas que não combinam

Sócrates aparece em três fontes antigas, e as três discordam. Platão o retrata como investigador rigoroso. Xenofonte, nas Memoráveis, entrega um conselheiro prático e bem comportado. Aristófanes, na comédia As Nuvens, faz dele um professor de trapaça argumentativa pendurado numa cesta.

Nenhum dos três escreveu para registrar os fatos. O desencontro tem nome entre historiadores, o problema socrático, e a consequência é desconfortável: toda frase que começa com "Sócrates dizia" já é a escolha de uma testemunha contra as outras duas.

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