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Giordano Bruno: as teses que o levaram à fogueira
Ideias · Leitura de 5 minutos

Neste artigo
Giordano Bruno foi queimado vivo numa praça de Roma, na virada do século 16 para o 17, depois de anos preso. A parte difícil da história não é a fogueira. É saber por qual motivo ele chegou nela.
A versão que circula diz que ele morreu por defender que a Terra gira em torno do Sol. A versão está errada. A versão contrária, de que a cosmologia dele nada teve a ver com o processo, também está.
Três teses explicam o tamanho do problema que ele criou, e nenhuma das três é astronomia no sentido que a palavra carrega hoje.
O universo infinito: a esfera das estrelas que ele desmontou
Copérnico tinha mudado o centro de lugar. Bruno tirou a borda.
Em Sobre o infinito, o universo e os mundos, escrito em italiano e publicado em Londres, ele sustenta que o espaço não tem limite, que as estrelas são sóis como o nosso e que não existe centro do mundo, porque num espaço infinito qualquer ponto serve de centro.
O argumento não veio de telescópio nem de conta. Veio da teologia. Uma causa infinita e onipotente não produziria uma obra finita, e a infinitude do universo entra ali como consequência de um atributo divino, o que explica por que a tese incomodou teólogos antes de incomodar astrônomos.
A cosmologia foi escrita contra o mundo fechado de esferas encaixadas herdado de Aristóteles e de Ptolomeu, que o próprio Copérnico havia preservado no ponto das estrelas fixas.
Os mundos habitados: a conta que a doutrina não fechava
Se as estrelas são sóis, elas têm planetas em volta. Se têm planetas, os planetas podem ter habitantes. Bruno afirma os inumeráveis mundos habitados na mesma obra, e a afirmação é o ponto em que a cosmologia vira problema de fé.
A dificuldade é simples de enunciar. A doutrina cristã organiza a história em torno de uma queda e de uma redenção únicas, ocorridas num lugar único. Multiplicar os mundos com gente dentro multiplica a pergunta sobre o que aconteceria com cada um deles.
Bruno não recuou em nenhum momento. A pluralidade dos mundos aparece entre os pontos listados no resumo que sobrou do processo, e é o item que mais aproxima o caso da história da ciência.
A alma do mundo: o divino dentro da matéria
A tese mais pesada é metafísica. Em Da causa, princípio e unidade, Bruno defende que a matéria não é passiva. Existe uma alma do mundo que anima tudo que existe, e uma substância única que aparece sob formas diferentes.
A consequência foi lida de imediato. Se o divino está dentro da natureza, some a distância entre criador e criatura, e a criação deixa de ser ato de um Deus separado da obra dele.
Some a doutrina da transmigração das almas, que ele também sustentava, e o desenho fica incompatível com o dogma em vários pontos ao mesmo tempo, sem precisar de nenhuma estrela.
O processo: o que o resumo sobrevivente registra
Os autos do julgamento romano se perderam. O que existe é um resumo do processo, localizado no arquivo do Vaticano em meados do século 20, e a lista de pontos ali é majoritariamente teológica.
Aparecem a negação da Trindade, a negação da divindade de Cristo, dúvidas sobre a transubstanciação e sobre a virgindade de Maria, a transmigração das almas e, no meio da lista, a pluralidade dos mundos. A denúncia inicial partiu de um nobre veneziano que o hospedava e que esperava dele aulas da arte da memória, assunto do livro Sobre as sombras das ideias.
Ele passou perto de oito anos preso, entre Veneza e Roma, e recusou a retratação final que lhe foi oferecida. A recusa é a razão imediata da sentença.
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Onde o mito nasceu, e onde os historiadores divergem
A imagem de mártir da ciência foi montada no século 19, por autores que liam o passado como guerra entre religião e conhecimento, e ganhou corpo de bronze com o monumento erguido na praça da execução.
Historiadores dividem o quanto conceder à imagem. De um lado ficam os que leem Bruno como pensador religioso e mago hermético, e tratam a cosmologia dele como consequência de uma metafísica, sem método de investigação atrás. Frances Yates é a referência da leitura, no livro Giordano Bruno e a Tradição Hermética. De outro lado ficam os que apontam a pluralidade dos mundos no resumo do processo e recusam a ideia de que a cosmologia entrou só de carona.
O que sobra dos dois lados vale mais que o mito. Ele foi condenado por teses teológicas, a cosmologia entrou junto no pacote, e ele não morreu defendendo um dado de observação. Morreu defendendo um mundo inteiro que tinha imaginado antes de qualquer telescópio existir.
A praça que já foi um campo de flores
A estátua fica no Campo de Fiori, em Roma, de pé sobre o ponto onde a execução aconteceu. Ela foi erguida no fim do século 19 por iniciativa de estudantes e de círculos anticlericais, contra a vontade declarada do Vaticano.
O nome da praça é anterior a tudo. Antes de virar mercado e palco de execuções, o terreno era um prado de flores, e a feira de hortaliças continua ali toda manhã, montada em volta do capuz de bronze.
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