A ideia · Pensador
Giordano Bruno: as teses que o levaram à fogueira
Por Redação Filosofia do Dia · Ideias · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- O universo infinito: a esfera das estrelas que ele desmontou
- Os mundos habitados: a conta que a doutrina não fechava
- A alma do mundo: o divino dentro da matéria
- O processo: o que o resumo sobrevivente registra
- Onde o mito nasceu, e onde os historiadores divergem
- A arte da memória, que era o que os nobres queriam dele
- Por que o caso não se compara ao de Galileu
- Linha do tempo de Giordano Bruno
- A praça que já foi um campo de flores
- Perguntas frequentes
Giordano Bruno foi queimado vivo numa praça de Roma, na virada do século 16 para o 17, depois de anos preso. A parte difícil da história não é a fogueira. É saber por qual motivo ele chegou nela.
A versão que circula diz que ele morreu por defender que a Terra gira em torno do Sol. A versão está errada. A versão contrária, de que a cosmologia dele nada teve a ver com o processo, também está.
Três teses explicam o tamanho do problema que ele criou, e nenhuma das três é astronomia no sentido que a palavra carrega hoje.
O universo infinito: a esfera das estrelas que ele desmontou
Copérnico tinha mudado o centro de lugar. Bruno tirou a borda.
Em Sobre o infinito, o universo e os mundos, escrito em italiano e publicado em Londres, ele sustenta que o espaço não tem limite, que as estrelas são sóis como o nosso e que não existe centro do mundo, porque num espaço infinito qualquer ponto serve de centro.
O argumento não veio de telescópio nem de conta. Veio da teologia. Uma causa infinita e onipotente não produziria uma obra finita, e a infinitude do universo entra ali como consequência de um atributo divino, o que explica por que a tese incomodou teólogos antes de incomodar astrônomos.
A cosmologia foi escrita contra o mundo fechado de esferas encaixadas herdado de Aristóteles e de Ptolomeu, que o próprio Copérnico havia preservado no ponto das estrelas fixas.
Os mundos habitados: a conta que a doutrina não fechava
Se as estrelas são sóis, elas têm planetas em volta. Se têm planetas, os planetas podem ter habitantes. Bruno afirma os inumeráveis mundos habitados na mesma obra, e a afirmação é o ponto em que a cosmologia vira problema de fé.
A dificuldade é simples de enunciar. A doutrina cristã organiza a história em torno de uma queda e de uma redenção únicas, ocorridas num lugar único. Multiplicar os mundos com gente dentro multiplica a pergunta sobre o que aconteceria com cada um deles.
Bruno não recuou em nenhum momento. A pluralidade dos mundos aparece entre os pontos listados no resumo que sobrou do processo, e é o item que mais aproxima o caso da história da ciência.
A alma do mundo: o divino dentro da matéria
A tese mais pesada é metafísica. Em Da causa, princípio e unidade, Bruno defende que a matéria não é passiva. Existe uma alma do mundo que anima tudo que existe, e uma substância única que aparece sob formas diferentes.
A consequência foi lida de imediato. Se o divino está dentro da natureza, some a distância entre criador e criatura, e a criação deixa de ser ato de um Deus separado da obra dele.
Some a doutrina da transmigração das almas, que ele também sustentava, e o desenho fica incompatível com o dogma em vários pontos ao mesmo tempo, sem precisar de nenhuma estrela.
O processo: o que o resumo sobrevivente registra
Os autos do julgamento romano se perderam. O que existe é um resumo do processo, localizado no arquivo do Vaticano em meados do século 20, e a lista de pontos ali é majoritariamente teológica.
Aparecem a negação da Trindade, a negação da divindade de Cristo, dúvidas sobre a transubstanciação e sobre a virgindade de Maria, a transmigração das almas e, no meio da lista, a pluralidade dos mundos. A denúncia inicial partiu de um nobre veneziano que o hospedava e que esperava dele aulas da arte da memória, assunto do livro Sobre as sombras das ideias.
Ele passou perto de oito anos preso, entre Veneza e Roma, e recusou a retratação final que lhe foi oferecida. A recusa é a razão imediata da sentença.
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Onde o mito nasceu, e onde os historiadores divergem
A imagem de mártir da ciência foi montada no século 19, por autores que liam o passado como guerra entre religião e conhecimento, e ganhou corpo de bronze com o monumento erguido na praça da execução.
Historiadores dividem o quanto conceder à imagem. De um lado ficam os que leem Bruno como pensador religioso e mago hermético, e tratam a cosmologia dele como consequência de uma metafísica, sem método de investigação atrás. Frances Yates é a referência da leitura, no livro Giordano Bruno e a Tradição Hermética. De outro lado ficam os que apontam a pluralidade dos mundos no resumo do processo e recusam a ideia de que a cosmologia entrou só de carona.
O que sobra dos dois lados vale mais que o mito. Ele foi condenado por teses teológicas, a cosmologia entrou junto no pacote, e ele não morreu defendendo um dado de observação. Morreu defendendo um mundo inteiro que tinha imaginado antes de qualquer telescópio existir.
A arte da memória, que era o que os nobres queriam dele
O que abriu portas para Bruno nas cortes europeias não foi cosmologia. Foi uma técnica.
A arte da memória é um conjunto de procedimentos herdado da retórica antiga para gravar grandes quantidades de informação sem anotação. O método clássico consiste em associar cada item a uma imagem marcante e distribuir as imagens por lugares de um edifício imaginado, percorrendo mentalmente os cômodos na hora de recuperar o conteúdo. Numa época sem impressão barata e sem índice remissivo, quem dominava a técnica tinha vantagem concreta.
Bruno levou o procedimento a um extremo próprio. Em Sobre as sombras das ideias, publicado em Paris, ele não apresenta apenas uma técnica de decorar: propõe um sistema de imagens organizado por rodas concêntricas e correspondências astrológicas, com a ambição de espelhar a ordem do próprio universo. Memorizar, ali, é alinhar a mente com a estrutura das coisas.
A ambiguidade explica a biografia. Para um nobre, o que estava à venda era desempenho intelectual espetacular; para um teólogo atento, o mesmo sistema cheirava a magia. Foi exatamente a promessa de ensinar a técnica que levou o veneziano Giovanni Mocenigo a hospedá-lo, e foi a insatisfação com as aulas que precedeu a denúncia.
Por que o caso não se compara ao de Galileu
Os dois nomes aparecem juntos com frequência, e o contraste ensina mais que a semelhança.
Galileu foi processado por defender o movimento da Terra como descrição verdadeira do mundo, apoiado em observações feitas com telescópio, e o núcleo do caso é astronômico. Bruno foi processado por uma lista majoritariamente teológica, em que a pluralidade dos mundos aparece no meio de negações de dogma central.
O desfecho separa ainda mais. Galileu abjurou e passou os últimos anos em prisão domiciliar, com liberdade para escrever, e produziu nesse período uma das obras mais importantes dele. Bruno recusou a retratação oferecida ao fim de quase oito anos de prisão, e a recusa é a razão imediata da sentença.
Há também uma diferença de método que costuma passar batido. Galileu apoia as afirmações em observação instrumental e em matemática, dentro de um programa que já se reconhece como ciência natural. Bruno deduz o universo infinito de um atributo divino, sem observação nem cálculo, num raciocínio que pertence à metafísica.
A conclusão que sobra não diminui nenhum dos dois. Um morreu por teologia com cosmologia junto, o outro foi condenado por cosmologia com teologia junto, e tratar os dois como o mesmo episódio apaga o que cada caso tem de específico.
Linha do tempo de Giordano Bruno
- 1548Nasce em Nola, perto de Nápoles, e recebe o nome de batismo Filippo, trocado por Giordano ao entrar na vida religiosa.
- 1565Ingressa na ordem dominicana em Nápoles, onde tem acesso à formação filosófica e à tradição da arte da memória.
- 1576Foge do convento diante de acusações de heresia e começa duas décadas de peregrinação por Genebra, Toulouse, Paris, Londres, Wittenberg, Praga e Frankfurt.
- 1584Publica em Londres, em italiano, os diálogos em que apresenta o universo infinito, os inumeráveis mundos e a alma do mundo.
- 1592Volta à Itália a convite de um nobre veneziano que esperava dele aulas da arte da memória, é denunciado ao tribunal eclesiástico e preso.
- 1600Depois de anos de processo em Roma e da recusa da retratação, é executado no Campo de Fiori.
A praça que já foi um campo de flores
A estátua fica no Campo de Fiori, em Roma, de pé sobre o ponto onde a execução aconteceu. Ela foi erguida no fim do século 19 por iniciativa de estudantes e de círculos anticlericais, contra a vontade declarada do Vaticano.
O nome da praça é anterior a tudo. Antes de virar mercado e palco de execuções, o terreno era um prado de flores, e a feira de hortaliças continua ali toda manhã, montada em volta do capuz de bronze.
Perguntas frequentes
Por que Giordano Bruno foi queimado?
Por uma lista majoritariamente teológica, registrada no resumo sobrevivente do processo: negação da Trindade e da divindade de Cristo, dúvidas sobre a transubstanciação e sobre a virgindade de Maria, transmigração das almas e, no meio da lista, a pluralidade dos mundos. A recusa da retratação final é a razão imediata da sentença.
Ele morreu por defender que a Terra gira em torno do Sol?
Não. Essa é a versão popular e ela está errada, assim como está errada a versão oposta, de que a cosmologia nada teve a ver com o caso. A pluralidade dos mundos consta entre os pontos do processo, e o núcleo da condenação é doutrinário.
O que Bruno defendia sobre o universo?
Que o espaço não tem limite, que as estrelas são sóis como o nosso e que não existe centro do mundo, porque num espaço infinito qualquer ponto serve de centro. O argumento não vem de observação, vem da teologia: uma causa infinita e onipotente não produziria uma obra finita.
O que é a alma do mundo em Bruno?
A tese de que a matéria não é passiva e existe algo que anima tudo que existe, com uma substância única aparecendo sob formas diferentes. A consequência foi lida de imediato: se o divino está dentro da natureza, some a distância entre criador e criatura.
Bruno era cientista?
Não no sentido moderno. Ele não fez observação instrumental nem cálculo, e as teses cosmológicas dele são deduzidas de premissas metafísicas e teológicas. Historiadores divergem sobre quanto peso dar ao lado hermético e mágico da obra, com Frances Yates como referência da leitura que o enfatiza.
Qual a diferença entre o caso de Bruno e o de Galileu?
Galileu foi processado por defender o movimento da Terra apoiado em observações com telescópio, abjurou e passou os últimos anos em prisão domiciliar escrevendo. Bruno foi processado por uma lista teológica e recusou a retratação ao fim de quase oito anos de prisão.
O que era a arte da memória que ele ensinava?
Um conjunto de procedimentos herdado da retórica antiga para gravar grandes quantidades de informação sem anotação, associando itens a imagens marcantes distribuídas por lugares de um edifício imaginado. Bruno levou a técnica a um sistema de rodas e correspondências com a ambição de espelhar a ordem do universo, o que soava a magia para teólogos atentos.
Onde fica a estátua de Giordano Bruno?
No Campo de Fiori, em Roma, sobre o ponto onde a execução aconteceu. Foi erguida no fim do século 19 por iniciativa de estudantes e círculos anticlericais, contra a vontade declarada do Vaticano, e a feira de hortaliças continua funcionando ali toda manhã.
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